Arquivo | fevereiro, 2013

A tal plantinha proibida… (E não é a que você tá pensando!)

26 fev

Vivemos todos aqui uma relação de amor e ódio com taxis. Em um dia normal, principalmente nas ruas mais tranquilas como a nossa, é fácil, fácil pegar um. E comparado com o preço das coisas por aqui, até que é transporte bem em conta. Existem pontos fixos por toda a cidade onde as pessoas aguardam, organizadamente, os taxis passarem para pegá-las. Quase sempre são carros novos ou em bom estado. Por outro lado, basta cair uma chuvinha e você pode contar mais de meia hora em um ponto esperando a sua vez. Ou então, como aconteceu conosco outro dia tentando ir ao aeroporto, pode ser a hora da transição de turnos de trabalho e aí, meu amigo, senta e chora porque táxi é a última coisa que você vai conseguir.

Mas isso são lições que nossa experiência aqui vai nos ensinando. Acho que a relação com os amarelinhos – que aqui na verdade são azuis, vermelhos ou pretos – só tende a melhorar. O maior problema de todos, para o André pelo menos, era a catinga o odor desagradável que muitos carros apresentam. Certa vez, abriu a janela tão enojado que eu realmente acreditei que ele fosse passar mal ali mesmo.

Pois o namorido jurava de pé junto que aquele cheirinho vinha do arroz que eles comiam dentro do carro, o que pra mim nunca fez muito sentido, já que eles proíbem tudo no interior do veículo (já vi adesivos proibindo soltar pum – juro!). E vamos combinar que o arrozinho da turma tem um cheirinho inofensivo, vai…

Numa noite dessas em que buscávamos as quebradas cingapurianas para nos divertir como os locais, fomos parar  sem saber em uma rua de reputação duvidosa. Ainda tentamos andar mais um pouco até que um “cardápio” de moças na porta de uma das boates foi o sinal pra darmos meia volta e caçar o primeiro taxi que passasse pela rua. E adivinhem? O tal “cheiriiiinho de limão” pairando de novo! Àquela altura, já tínhamos ouvido falar que muitos chineses levam uma plantinha misteriosa no porta malas e que talvez essa fosse a chave do mistério. Demos uma discreta vasculhada na parte traseira do táxi e – tchanam! – lá estava a bendita. Um chumaço de folhas verdes e compridas. Então, para coroar aquela noite mágica, resolvemos tirar a dúvida de vez e o diálogo com o piloto deu-se mais ou menos assim:

– Hey, my friend? – maneira que o André sempre começa as conversas com os locais, adoro! – What is this? 

– Ahnn, just bars… – ele respondeu desconfiado provavelmente se questionando se éramos ingênuos ou engraçadinhos por não saber do que se tratavam aqueles bares.

– No… I mean this plant over here?

– Oh, that’s Pandan!

– And what is that for? – o André continuou o papo, enquanto eu digitava o tal nome no celular em busca de informações complementares. E eis que o motorista manda a pérola:

– To eliminate the odor!!

Assim como o cheiro da planta o silêncio tomou conta do carro até chegarmos em casa. Nenhuma resposta era boa o suficiente.

Alerta! Alerta!

25 fev

Outro dia estava eu em casa, tv ligada, assistindo a Asia’s Next Top Model um documentário sobre mulheres asiáticas quando uma mensagem com letras garrafais cruzou a tela. Não vou saber repetir as exatas palavras, mas era algo como:

“Atenção telespectadores! Amanhã ao meio-dia nossos alarmes irão soar. Imediatamente sintonize o rádio para um comunicado importante.”

Por sorte a mesma mensagem cruzou a tela mais umas três vezes e eu pude confirmar que não tinha lido errado. Na mesma hora o reality documentário deixou de ser meu foco de interesse, perdendo de lavada para minhas pesquisas na internet na tentativa de desvendar aquele mistério. Um aviso de que os alarmes iriam soar não passava despercebido a alguém que tem um abrigo anti-bomba dentro de casa. Ahhhh, nunca comentei que temos um abrigo anti-bomba em casa? Pois é… Temos um abrigo anti-bomba dentro da nossa cozinha e ao que parece todos os apartamentos aqui são obrigados a ter. Até onde eu sabia, são tão obsoletos que os moradores têm o costume de usá-los como quarto de empregada (em 90% dos casos uma pobre filipina que dorme em um buraco sem janelas e com porta anti-fogo, mas que no caso de incêndio será a única sobrevivente!). Entendem agora por que fiquei obcecada pela mensagem??

Pois lá fui eu perguntar ao “ohhhh grande google” que raios de alarme eram aqueles. Eis que ele me responde que em Cingapura existe, sim, um sistema de alarmes de emergência que consiste em uma rede de sirenes instaladas em lugares estratégicos da cidade, destinadas a avisar a população sobre possíveis ameaças naturais ou man made disasters.

Bomba? Ataque nuclear?? Tsunami??? Sei lá, pessoal. O próprio site oficial do governo não entra em maiores detalhes. Mas vale a pena a visita, pois da pra escutar os tipos de sirene! Diversão masoquista pura! Escuta só aqui!

Encasquetada com essa história toda, contei ansiosa as horas para meio-dia do dia seguinte. Até, claro, que esqueci completamente e levei um baita susto quando sirenes altíssimas começaram a soar lá fora. Não esperava ataque aéreo nem maremoto, pois àquela altura já tinha decorado todos os quatro tipos de alarme e sabia que o que berrava lá fora era o do tipo sem emoção: “comunicado importante”. Se fosse o do tipo “move to a shelter immediately” eu teria uma história mais interessante pra contar. Ah, e qual era a mensagem tão importante que merecia tamanha introdução? Não sei, soooorry, quando consegui achar o fone de ouvido para sintonizar a rádio no celular já não tinha mais nada no ar além de música.

Vou ficar devendo maiores explicações. Mas como descobri mais tarde que as sirenes soam todo mês para teste, vou ficar com o fone em mãos para não perder o próximo comunicado. E conto procês, uai!

Piada pronta!

20 fev

Essa é rapidinha…

Quando estávamos ainda em busca de apartamento, nossas pesquisas nos levaram a uma rua que se chamava, vejam só, Opal Crescent.

Infelizmente, de interessante a rua só tinha o nome. E ficamos só na vontade de viver num eterno trocadalho…

Ah, pra quem duvida, procura no Google aê!

…e a serpentina virou serpente!

16 fev

Esse ano não teve carnaval. Nada de confete, serpentina, marchinha. A quarta-feira de cinzas chegou e no armário não havia fantasias, no chão do quarto nem sinal da purpurina e a ressaca então, não chegou nem perto. O sono estava em dia, o corpo não doía e as unhas do pé continuavam limpinhas. Pois é, esse ano não teve carnaval…

Foi difícil sentir a folia se aproximar à distância sem escutar o som do surdo, dos tamborins, dos trompetes. Não acordar com as galinhas pra subir as ladeiras de Santa Teresa. Não ter a companhia daqueles poucos amigos que, assim como eu, permanecem fiéis ao carnaval e muito menos reencontrar aqueles outros que só aparecem nessa época do ano, perdidos nos blocos. Nada de mamãe eu quero, alalaô e nem apito do índio. Esse ano o Carnaval não abriu alas pra gente passar.

E como um casal tão carnavalesco como o a gente faz para sobreviver a mais um ano sem botar o bloco na rua? Oras, o que mais a gente gosta de fazer tanto quanto pular carnaval? A opção número um foi censurada. Viajar, é claaaaro! Afinal, estamos no coração da Ásia e, para noooossa alegria, o feriado mais aguardado do ano coincidiu com o maior holiday de Cingapura: o Chinese New Year. E se aí no Brasil o ano só engrenar depois do carnaval já virou piada e cara-de-pau, por aqui segue a mais pura lógica que o ano só comece depois… do ano novo! E então, começa o ano lunar chinês, o ano da Serpente!

E foi assim que ganhamos também um feriadão pra chamar de nosso! Bastava escolher o destino, comprar as passagens e, pimba!, nos mandar pra bem longe do facebook, que àquela altura já estava irritando com tantas fotos e posts sobre como é divertido o pré-carnaval carioca. Blééééé! Não foi surpresa descobrir que as passagens estavam caríssimas e que teríamos que escolher rotas mais baratas alternativas. Resumindo dias e dias de pesquisas na internet, descolamos passagens baratééérrimas para a desconhecida Padang. Pela bagatela oferecida, já era de se imaginar que essa cidade a oeste de Sumatra, na Indonésia, não era o destino mais procurado por turistas. E essa era a grande graça da coisa.

Sexta-feira pré-carnaval, digo, pré ano novo chinês, já estávamos de folga curtindo o clima de festa em Cingapura. Antes de botar o pé na estrada, ainda deu tempo de tomar uma saideira numa Chinatown fervilhando de gente – chineses e turistas – às vésperas da grande noite. Sábado embarcamos pra Padang.

Andando pelas ruas da cidade, dava pra entender o motivo das passagens tão baratas.  O lugar já viu dias melhores, possuía um charmoso distrito colonial que eu só conheci através da internet. Em 2009, um terremoto devastou a cidade, que até hoje não se recuperou. De atração turística, acredito que só sobrou um museu, que nem chegamos a visitar. O plano era seguir caminho para as montanhas até a pitoresca Bukittinggi, a duas horas de van de Padang – distância que o trânsito louco e os motoristas mais loucos ainda faziam aumentar consideravelmente.

Bukittinggi é uma cidade muito turística: qualquer gringo que apareça por lá se torna imediatamente uma grande atração! Tudum-tum-tsss! (piadinha do André, viu?) Mas acreditem, amigos, se não bastassem todos os indivíduos na rua nos cumprimentando (eita povo simpático!), fomos abordados para tirar foto ao lado de uma menininha liiiinda dentro de um supermercado. Mas flashes e holofotes a parte a cidade é mesmo bonitinha com seu mercadão a céu aberto e feira na praça reunindo famílias, vendedores e barraquinhas para uma típica tarde de domingo. Isso tudo sem cruzar com um único grinnngou além de nós.  Ponto para Bukittinggi.

Descendo 44 curvas estrada abaixo (numeradas por placas pra não restarem dúvidas) chega-se no lago Maninjau formado a partir de uma cratera vulcânica e cercado de pequenos vilarejos dedicados à criação de peixes e à plantação de arroz. Para percorrer os 40km de extensão do lago por uma estradinha de mão dupla esburacada, recortada por pontes de troncos de madeira e cercada de casinhas e plantações, recorremos a uma scooter alugada do dono da pousada. Assim, expostos na garupa de uma moto, invadimos a vida calma das montanhas e fomos saudados pelos locais com acenos, sorrisos (uns tímidos, outros nem tanto) e até com alguns “hello how are you what’s your name?” (assim seguidinho como as crianças devem estar aprendendo nas lições da escola). E pra fechar o dia, um peixinho, uma cerveja gelada e um papo divertido com o dono do restaurante, logo ali na beira do lago e de frente para o por do sol.

Não, essa ano, definitivamente, não tivemos carnaval. Trocamos a serpentina pela serpente, quatro dias de festa por um ano chinês inteirinho pra fazer muitas folias como essa que fizemos na Indonésia. Quanto riso, quanta alegria!

Nossa motoca passa por escolinha às margens do lago Maninjau.

Nossa motoca passa por escolinha às margens do lago Maninjau.