Arquivo | agosto, 2013

O gostinho da saudade!

29 ago

Ontem comi minha primeira paçoca em oito meses. Me emocionei. Juro. Gostinho de casa, de festa junina, de escapada de dieta.  Gostinho de baleiro do colégio, de lanchinho da tarde no trabalho. Gostinho da saudade!

É bem provável que eu já tenha ficado mais de oito meses sem comer paçoca no Brasil sem nunca ter me comovido ao comer uma. Mas estamos há quase nove meses longe de casa e cada pequena coisa que aguça a nossa memória e aperta a nossa saudade começa a ter um sentido todo especial.

Cada vez que algum amigo daqui vai passar férias no Brasil lá vem a enxurrada de encomendas. E são sempre as mais esdrúxulas e nada de realmente importante como se poderia imaginar – são coisas absolutamente triviais e que nunca tiveram um grande papel na rotina no Brasil. Chiclete, creme para cabelo crespo, panela de pressão, e por aí vai…

Também faço parte da turma das encomendas e a minha lista não é muito diferente. Junto com a paçoca que eu comi ontem também recebi a maior de todas as preciosidades: calcinhas! Isso mesmo, porque aqui ou é calçola da vovó ou é fio dental. Então, eis que eu recebo um pacote cheio de calcinhas brazucas, aquelas da Renner que custam dez pratas e não te fazem sentir com 80 anos nem passam o dia entrando no seu brioco. Uma alegria (as que eu trouxe comigo estavam pela hora da morte)!

Já tive o prazer de receber outras encomendas louváveis nesses últimos meses! Como por exemplo, um par de havaianas, que pro meu estilo de vida por aqui viraram artigo de primeira necessidade, mas que  em Cinga custam os olhos da cara. Nada de chinelo vendendo na farmácia por um precinho (que já foi mais) camarada…

Rolaram também frascos de buscopan, a única poção mágica capaz de acalmar minhas cólicas mensais. E as caixas de erva mate?! Não sei como a carioca aqui estava vivendo sem elas! Desde que chegaram, economizo tanto a minha iguaria, que meus mates mais parecem chá do que aquela gostosura marrom que sai dos tonéis porcalhões da praia de Ipanema! Mas é o que temos, paciência!

Outro dia me peguei invejando uma menina que recebeu um pacote de farofa Yoki, daquelas bem vagabundas que eu jamais compraria por saber que a minha feita em casa na panela é bem mais gostosa. Mas aqui em Cingapura, o farelo daquele pacote feio e amassado continha o verdadeiro gostinho da saudade…

Como fazer uma carioca feliz longe de casa! Fica a dica aos amigos que vêm aí...

Como fazer uma carioca feliz longe de casa? Fica a dica aos amigos que vêm aí…

O preço da ostentação

23 ago

Não me venham falar em tradição.

Não me venham falar que a sopa da barbatana de tubarão é uma receita milenar que vovózinhas chinesas vêm passando através de gerações na tentativa de manter vivo antigos costumes do seu povo. A sopa da barbatana de tubarão nada mais é do que símbolo de status e riqueza, pura ostentação que se vê em grandes eventos como casamentos, festas e jantares de negócios. Herança da Dinastia Ming, que a elevou a condição de iguaria pela raridade de seu principal ingrediente, a sopa atualmente é consumida em escala muito maior do há alguns séculos.

Um amigo brasileiro que também vive aqui em Cingapura me relatou outro dia sobre um jantar de confraternização da empresa em que ele trabalha, onde foi servido o polêmico prato. Ele, que me conhece há anos e tá cansado de ouvir meus discursos sobre a sustentabilidade daquilo que levamos à mesa, recusou-se a experimentar. Seus companheiros cingapurianos, no entanto, se deliciaram com a iguaria sem culpa alguma. Não porque era gostoso. Não porque tinha propriedades medicinais. Mas porque era caro, chique e, para a sorte deles, de graça.

Segundo o site Stop Shark Finning, um prato da sopa pode custar até 100 dólares nos restaurantes, o que faz com que pescadores espalhados pelo mundo não poupem esforços para garantir as tais barbatanas que vão aumentar consideravelmente o lucro dos negócios. Não precisamos ir muito longe nessa história para concluir que, uma vez que apenas as barbatanas interessam, depois de cortadas e o lucro garantido, os animais são jogados de volta ao mar para morrer.

Isso, por si só, já é o suficiente para nenhum ser humano querer consumir esse tipo de alimento. Mas vamos seguir. Ao que parece, a barbatana em si não gosto de p* nenhuma, apenas serve para dar textura e consistência a um caldo de legumes ou frango. Quer mais? A medicina chinesa atribui à iguaria propriedades medicinais, entretanto a carne do tubarão possui altas doses de mercúrio se comparada à de outros peixes. Então? Ficou com água na boca?!

Em Cingapura, a Cold Storage, uma das maiores redes de supermercado, aboliu a venda da barbatana e da carne de tubarão. Logo o Carrefour e o Fair Price seguiram o exemplo e retiraram os produtos de suas prateleiras. Mas por aqui a sopa ainda é muito popular entre os chineses. Restaurantes de luxo a oferecem sem constrangimentos, casais continuam a esbanjando em suas bodas e ninguém esconde a vontade de experimentar o gostinho da riqueza!

Segundo a organização Sea Shepherd, mais de 100 milhões de tubarões são abatidos todos os anos. Oito mil toneladas de barbatana de tubarão são processadas anualmente, sendo que ela constitui apenas 4% do corpo do animal. Dezoito espécies de tubarão estão ameaçadas de extinção. Esse é o preço da ostentação.

Barbatanas de tubarão expostas nas vitrines de Macau.

Barbatanas de tubarão expostas nas vitrines de Macau.

 

Yes! Nós temos melancia… quadrada!

20 ago

Amigos, o tempo anda curto por aqui por vários motivos! E como não quero deixar vocês na mão,  vou tentar manter o blog atualizado nem que seja com algumas fotos e pequenos causos! A de hoje eu tirei durante umas comprinhas em um supermercado japonês que tem aqui perto de casa. É o tipo da coisa que só se vê por aqui…

E se vocês pensam que eu estou falando do formato da melancia, estão muito enganados! Olhem mais atentamente e reparem no precinho da iguaria…

Alguém se habilita a fazer uma encomenda?!

Feijoada (quase) completa!

7 ago

Não sou daquelas que viram um monstro fora de controle quando está na TPM. Não tenho vontade de matar ninguém e muito menos de me entupir de brigadeiro ou estrogonof, ou dos dois ao mesmo tempo. Raramente perco meus cabelos  ou faço o namorado perder os dele por conta da temida TPM. Eu disse raramente.

Esse mês tive uma dessas, tenebrosa! Mas antes de atacar meu humor a danada atacou meu estômago. E depois de oito meses na Ásia e longe da comidinha brasileira, adivinhem só o que esse estômago genioso e dominado pelos hormônios começou a exigir?

Patanisca do Pavão Azul! Não, pastel de palmito do Bar Urca! Não, caldinho de feijão do Belmonte! Ou feijoada em Santa Teresa? Já sei, pão na chapa da padaria da General Glicério! Não, bacalhau no Centro! Queijo minas na Rio Lisboa! Caldo de cana da feira! Arroz integral do Gohan!!! A situação era tão grave que mesmo a quase vegetariana que vos fala seria capaz de comer um salsichão com farofa se por milagre aparecesse um por essas bandas!

Passei o dia falando em comida, fui dormir pensando em comida e acordei depois de sonhar com comida. Não consegui encontrar nada que matasse a minha vontade de comida “de casa” e fui obrigada e me contentar com um peixinho sem graça no restaurante da esquina e um belo mojito (que eu tomei porque o namorado falou que “ia me fazer bem”).

A influência dos hormônios demoníacos diminuiu (ela nunca vai embora totalmente, né?) e eu sobrevivi a mais uma semana de dumpling soups, sashimis, hot pots, cogumelos e um tanto de vegetais orientais que sequer têm nome em português. Eu adoro tudo isso, veja bem, mas, como eu disse, lá se vão oito meses e a saudade é grande com ou sem TPM.

Para a minha alegria no fim de semana seguinte fui presenteada com uma “feijoada vegetariana” que o André pacientemente preparou para mim. Digo “feijoada” porque mesmo depois de uns bons 40 minutos no supermercado não conseguimos todos os ingredientes que uma verdadeira feijoada brasileira pede. Mas como era uma versão vegetariana já estávamos preparados para algumas concessões e soluções criativas.

O supermercado aqui perto de casa é japonês, então fomos de feijão azuki mesmo e nos demos por satisfeitos. Também conseguimos achar ali o delicioso arroz integral short grain que tanto procurávamos! Já couve, nem pensar. Substituímos por dois tipos de folhas que tinham cara de couve, mas que nem com a ajuda do google descobrimos o que eram. O jeito foi torcer para que na manteiga com bastante alho também ficassem com gosto de couve. Aí chegou a vez da farofa… Ah, a farofa… Fiquei na vontade. Nada aqui foi capaz de substituir a minha amada e saudosa farofa!  Substituir a carne foi moleza já que é um elemento que eu sempre quero ver bem longe da minha cozinha. Tofu, abóbora, cenoura e bardana! Muito melhor do que orelha de porquinho…

Enquanto o André pilotava o fogão na missão hercúlea de criar uma feijoada com essa mistura de ingredientes estranhos, eu cuidava da caipirinha. Fácil, fácil, porque o que não falta aqui em casa é cachaça brasileira! E depois de um dia entre supermercado e cozinha, voilà!, nascia uma versão oriental-veggie de feijoada!

Como não poderia deixar de ser, fomos com toda a sede do mundo ao pote e devoramos dois pratos de “feijoada” cada um, o que fez com que dedicássemos o resto do nosso sábado ao conforto do sofá e do ar condicionado. Estômago cheio, satisfeito e hormônios definitivamente acalmados.

Feijoada improvisada, caipirinha autêntica!

Feijoada improvisada, caipirinha autêntica!

Banquete! Só faltou a farofa!

Banquete! Só faltou a farofa!

E no domingo, de volta à dumplig soup!

Dumpling soup é o meu prato favorito em Cingapura e uma maravilha da culinária chinesa!

Dumpling soup é o meu prato favorito em Cingapura e uma maravilha da culinária chinesa!