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Nasceu!

20 set

No último dia 10 completamos nove meses vividos do outro lado do mundo. Meu período de gestação que chegou ao fim, apesar de puramente simbólico (calma, mãe!), não me livrou dos dias de ansiedade, de enjôos, dos momentos de alegria extrema e também de tristeza repentina. E como meus nove meses não terminaram nas dores do parto e eu não me vejo às voltas com fraldas e mamadeiras, tenho agora tempo de sobra para refletir sobre meus quase 250 dias longe de casa.

Levei nove meses para aprender que a saudade não dói nem é constante, mas vem de repente e forte quando menos se espera – e de preferência nos horários em que o fuso não permite nenhuma comunicação com o Brasil. Aliás, posso dizer que a grande surpresa foi descobrir que nosso maior inimigo é o fuso horário e não a distância.

Nesse período, aprendi que um email inesperado, curtinho e sincero pipocando na caixa de entrada do gmail tem muito mais valor do que aquele “sumiço” de algumas pessoas queridas. Precisei de muito menos que nove meses para desistir da ideia fofa de mandar cartinhas aos amigos – a fila no correio é insuportável em qualquer lugar do mundo! Deixei de lado. Cedi à tecnologia, ao smart phone, ao whatsapp, ao gtalk e a este blog. Não, ainda não criei um perfil no Instagram.

Esses nove meses também me proporcionaram um bem raríssimo pra mim até então: tempo. Aqui tive tempo para refletir, planejar, sonhar. Tempo para não fazer nada e tempo para fazer tudo. Tempo para descobrir o que quero da vida e tempo para mudar de ideia. Na redução drástica de interlocutores (trabalhar em casa é um silêncio de doer os ouvidos) passei a elaborar e a responder minhas próprias perguntas, uma terapia saudável na maioria das vezes e insustentável em outras. Há momentos em que é melhor trocar seus próprios botões por uma cerveja gelada e fim de papo. É assim em qualquer lugar do mundo…

Aqui também vivi os meus primeiros 250 dias sem empregada doméstica desde que saí da casa dos meus pais há sete anos. Não importava o quão magras as vacas andavam, esse era um “luxo” do qual eu nunca abria mão. Aqui eu decidi mudar. Uma mudança que me ensinou muito mais do que a lavar roupa. Ao cuidar da minha própria casa, aprendi como meu lar reflete meu estado de espírito e que para ter uma casa alegre e aconchegante é preciso estar, acima de tudo, de bem com a vida. Aprendi a importância de um marido que lava e passa suas próprias roupas, faz sozinho supermercado em plena segunda-feira e, no tempo dele, arruma a própria bagunça sem que eu precise me tornar a mala da relação. Aprendi a fazer quinoa, cuscus, lentilha, mas meu arroz continua empapado. Demorei nove meses para descobrir que a máquina de secar que estava arruinando minha lingerie e muito menos para desenvolver uma paixão arrebatadora pelo aspirador de pó.

Nove meses é tempo demais para se viver sem amigos e por mais difícil que pudesse parecer no começo aos poucos fomos formando nossa tchurménha longe de casa. Um chopp aqui, outro almoço ali e me peguei sorrindo na primeira vez em que me chamaram para um jantar de domingo “em família”. Cada um de um canto diferente, com uma história diferente, mas todos com a distância e a saudade de casa em comum. Aprendi que aqui estamos todos no mesmo barco e que os laços que vão se formando vão deixar saudades na hora de voltar pra casa! Mais ainda é cedo para pensar nisso, afinal chegamos apenas na metade do caminho…

Mas tem uma coisa que não me custou nem um dia para aprender:  entre tantos erros e acertos, dúvidas, inseguranças e uma enxurrada de aprendizados, essa experiência desvairada de viver do outro lado do mundo apenas deu certo (e vai continuar dando) porque  tenho do meu lado, sorrindo sempre, um companheiro, um parceiro, um porto seguro que só não é perfeito porque tem pé chato.

Lar, doce lar...

Lar, doce lar…

O preço da ostentação

23 ago

Não me venham falar em tradição.

Não me venham falar que a sopa da barbatana de tubarão é uma receita milenar que vovózinhas chinesas vêm passando através de gerações na tentativa de manter vivo antigos costumes do seu povo. A sopa da barbatana de tubarão nada mais é do que símbolo de status e riqueza, pura ostentação que se vê em grandes eventos como casamentos, festas e jantares de negócios. Herança da Dinastia Ming, que a elevou a condição de iguaria pela raridade de seu principal ingrediente, a sopa atualmente é consumida em escala muito maior do há alguns séculos.

Um amigo brasileiro que também vive aqui em Cingapura me relatou outro dia sobre um jantar de confraternização da empresa em que ele trabalha, onde foi servido o polêmico prato. Ele, que me conhece há anos e tá cansado de ouvir meus discursos sobre a sustentabilidade daquilo que levamos à mesa, recusou-se a experimentar. Seus companheiros cingapurianos, no entanto, se deliciaram com a iguaria sem culpa alguma. Não porque era gostoso. Não porque tinha propriedades medicinais. Mas porque era caro, chique e, para a sorte deles, de graça.

Segundo o site Stop Shark Finning, um prato da sopa pode custar até 100 dólares nos restaurantes, o que faz com que pescadores espalhados pelo mundo não poupem esforços para garantir as tais barbatanas que vão aumentar consideravelmente o lucro dos negócios. Não precisamos ir muito longe nessa história para concluir que, uma vez que apenas as barbatanas interessam, depois de cortadas e o lucro garantido, os animais são jogados de volta ao mar para morrer.

Isso, por si só, já é o suficiente para nenhum ser humano querer consumir esse tipo de alimento. Mas vamos seguir. Ao que parece, a barbatana em si não gosto de p* nenhuma, apenas serve para dar textura e consistência a um caldo de legumes ou frango. Quer mais? A medicina chinesa atribui à iguaria propriedades medicinais, entretanto a carne do tubarão possui altas doses de mercúrio se comparada à de outros peixes. Então? Ficou com água na boca?!

Em Cingapura, a Cold Storage, uma das maiores redes de supermercado, aboliu a venda da barbatana e da carne de tubarão. Logo o Carrefour e o Fair Price seguiram o exemplo e retiraram os produtos de suas prateleiras. Mas por aqui a sopa ainda é muito popular entre os chineses. Restaurantes de luxo a oferecem sem constrangimentos, casais continuam a esbanjando em suas bodas e ninguém esconde a vontade de experimentar o gostinho da riqueza!

Segundo a organização Sea Shepherd, mais de 100 milhões de tubarões são abatidos todos os anos. Oito mil toneladas de barbatana de tubarão são processadas anualmente, sendo que ela constitui apenas 4% do corpo do animal. Dezoito espécies de tubarão estão ameaçadas de extinção. Esse é o preço da ostentação.

Barbatanas de tubarão expostas nas vitrines de Macau.

Barbatanas de tubarão expostas nas vitrines de Macau.

 

O tempo passa e os nossos passatempos

31 jul

Fim de semana vem, fim de semana vai e aos poucos os programas turísticos e as novidades vão ficando escassos. E quem vem lá? A rotina! Sim, ela também chega aqui do outro lado do mundo! E não é pra menos, em poucos dias completamos nosso oitavo mês longe do Brasil.

O lado bom disso é que agora nós podemos ter o gostinho de vida normal e junto com ela vem um monte de coisa gostosa que curtimos fazer juntos. Como contei no outro post, finalmente tivemos tempo de esticar nosso slack line no East Coast Park. Também já demos umas boas voltas de bicicleta pela cidade e muitas outras de skate, nosso mais novo hobby. Como moramos na beirinha do rio, fica fácil seguir seu curso e chegar lá na Marina Bay, um dos lugares mais bonitos daqui, principalmente no por do sol.

A tal rotina também nos permite agora curtir nossa casa sem a culpa do “tem tanto pra conhecer lá fora e eu aqui dentro”. Com o passar das semanas, corremos atrás de botar nossos filmes em dia (já tivemos exibição de desde o excelente documentário Searching for Sugarmen até o super-bocó Se Beber Não Case 2). E nada de cinema, aqui é sofá da sala e colo do namorado. Também nada de pipoca, aqui só dá brigadeiro direto da panela.

Nossa rotina também inclui um dos programas preferidos dos cingapurianos: comer, comer, comer! Mas sobre isso eu falo no próximo post! Por enquanto, deixo vocês com um vídeo curtinho e improvisado que fiz mais pra testar minhas novas bugigangas asiáticas do que pra mostrar a cidade. Mas vocês vão ver como dois skates de plástico da lojinha de conveniência, uma GoPro e um tripé fazem uma tarde de domingo ser tão divertida!

Ah, como tem muita gente tem me perguntado sobre as trilhas dos vídeos, vou passar a dizer sempre qual é a música (silvioooooo) pra quem gostar poder ouvir em casa! O vídeo (dá pra chamar isso de vídeo, gente?!) de hoje é embalado por Alabama Shakes – Hang Loose! Recomendo baixar, digo comprar, o CD que é todo muito bom! Divirtam-se!

cissa.em.cima do slack

9 jul

Poucas semanas antes de empacotar tudo e me mandar pro outro lado do mundo, minha amiga Carol, sempre um exemplo no assunto esporte e saúde, me convidou a fazer aulas de slack line com ela no aterro do Flamengo.  Tomei gosto pela coisa e consegui ter algumas horinhas de paz e equilíbrio no meio da confusão que estava a minha vida naqueles dias. Foram poucas as aulas e pouquíssima as manobras de fato aprendidas, mas se não me transformou em nenhuma malabarista serviu para o namorado se animar em comprar a nossa própria fita e trazê-la conosco pra Cingapura.

Os meses passaram e ela ficou lá, quase esquecida, no canto do nosso bomb shelter (que na falta de bombas virou o quarto da bagunça mesmo). Quase, mas não totalmente. A ideia de desenrolá-la por aqui sempre esteve presente, mas em um lugar cheio de regras e proibições batia um certo medo de sair amarrando nosso slack em qualquer árvore.

Em uma ida ao East Coast Park para andar de skate nos deparamos não com uma, mas duas slacks presas às árvores sem nenhum problema. Pronto!, acabaram-se as desculpas e pudemos, enfim, voltar a praticar. Estamos bastante enferrujados e o video a seguir, cheio de firulas de edição pra disfarçar, é a prova de que manobras e piruetas vão ficar pra depois! Mas vale o registro divertido do nosso dia tão lúdico, até que a chuva, sempre ela, nos fez recolher tudo e voltar pra casa…

cissa.em.little india

2 jul

Apesar da eficiência e da ordem cairem muitíssimo bem na minha rotina por aqui (jamais vou reclamar disso…), é ótimo saber que a poucas estações de metrô – ou a uma bela caminhada para os dias de maior disposição – se encontram pequenos redutos de autenticidade e tradição capaz de quebrar qualquer possível monotonia das áreas, digamos, mais modernizadas.

O vídeo de hoje traz justamente um desses lugares: a Little India. Como o nome mesmo sugere esse é o bairro que reúne a comunidade tamil, terceiro maior grupo étnico de Cingapura. Apesar de hoje em dia eles viverem espalhados pela cidade, o comércio e os principais templos seguem concentrados nessa região que exala cheiros e exibe cores que são um convite a um longo dia de caminhada sem rumo. Ali as vitrines brilham com joias de ouro enquanto barracas na rua transbordam flores e frutas e camelôs anunciam piratão dos melhores filmes de Bollywood. As casas de massagem ayurvedica ou pintura de henna se intercalam com restaurantes, templos e mesquitas. No ar, o cheiro de curry, incenso e o som alto das buzinas.

As pequenas shophouses que afloram por toda a cidade, na Little India são mais exibidas e coloridas. No Tekka Centre a noção de tempo vai pro espaço, pois as pequenas tendas têm tudo para decorar a casa: almofadas e tecidos do Nepal, artesanato de madeira da India, óleos, velas e quando vê lá se foram 40 minutos! Outro ponto bom para bater perna é o Arcade, mercadão de frutas, legumes, peixes e carnes que também aloja um imenso refeitório de comidas típicas indianas. Nada melhor para fazer hora enquanto os templos não abrem suas portas para os devotos que chegam no fim do dia com suas oferendas e rezas.

Apesar de ser um pequeno reduto barulhento, colorido e desordenado, em um aspecto ele continua igual ao resto da cidade: o clima. Você pode dar o azar de pegar um sol de rachar ou dar o azar de enfrentar um pé d’água sem aviso prévio. Ou os dois quase ao mesmo tempo.

Cissa.em.haze

21 jun

Tanta coisa acontecendo no Brasil, que nem tenho energia para escrever aqui no blog. Meu coração está em casa agora, mas vou continuar mandando informações da nossa situação aqui em Cinga…

Hoje o país bateu mais um recorde! O índice da qualidade do ar ultrapassou a marca de 400… Lembrando que o pior registro era de 226, em 1997.

Saí para almoçar e levei as câmeras comigo para fazer um breve registro, afinal não dá pra ficar muito tempo na rua exposta a esse ar venenoso! Taí o vídeo editado em tempo recorde também!

Desculpem passar tão rápido por aqui hoje, mas vou voltar ao facebook, meu aliado maior para saber notícias do Brasil…

cissa.em.chinatown

7 jun

Não ligo pra cronologia. Muito pelo contrário. Adoro filmes que começam pelo fim, de preferência com a morte do mocinho. E antes de iniciar um novo um livro leio sempre último parágrafo. Então, não vai ser aqui no meu blog que vou me preocupar com a ordem dos acontecimentos, certo?

O vídeo de hoje retrata uma noite que aconteceu há muito tempo numa galáxia distante. Havíamos chegado há poucas semanas em Cingapura e bater perna pela Chinatown ainda era uma novidade. Mas de fato essa noite foi diferente e não vimos mais o lugar tão cheio e animado desde então, já que estávamos na véspera do Ano Novo Chinês. E, pra nossa sorte, o maior feriado daqui coincidiu justamente como o nosso primeiro carnaval longe do Rio, lembram? Contei tudo isso aqui.

Como promessa e dívida, finalmente arrumei um tempo para editar o material das gravações daquela noite. Reparem: verão bombando, todo mundo suado, aquela falta de glamour de sempre! E pra quem anda reclamando que os vídeos estão muito curtos (viu, Marcinha? viu, mãe?), adivinhem só?! Pois é, continuam curtinhos, curtinhos…

 

Cissa.em.cinga no Thaipusam

27 abr

Umas das coisa mais incríveis que eu já tive o prazer de presenciar nesses mais de quatro meses de Ásia foi a comemoração do Thaipusam. Não vou me aprofundar no assunto, pois já contei como foi – em detalhes – nesse post aqui. Então, voltem lá para relembrar que vale a pena. Não porque fui eu quem escreveu, mas porque vale a pena entender um pouco desse festival tão especial para os hindus.

Isso foi em janeiro desse ano e lá se vão tantos meses. Mas o vídeo finalmente saiu. Foram meses conturbados, então me dêem um descontinho, vai…

Ano que vem, pretendemos acompanhar o Thaipusam em Batu Caves, na Malásia, onde ocorre o maior festival do mundo. A ver…

Cissa.em.cinga, finalmente!

25 abr

Ei, hoje é dia de vídeo!

Sei que vai ter gente feliz aí do outro lado… Eita, povo exigente, viu? Foi só eu postar os outros seguidinhos que ficou todo mundo mal acostumado!

Aviso logo que esse é curtiiiiiiiinho, curtinho, mas muito especial, pois mostra finalmente um pouco de Cingapura pra vocês! E ainda melhor, mostra justamente um pedaço da cidade que a gente adora!

Descendo o rio, um cadinho depois de onde a gente fincou a nossa bandeira e chamou de lar, passamos pelos mais famosos cartões postais da cidade. É uma antiga área comercial à margem do rio que foi revitalizada ao longo dos anos 80 e 90 e se transformou de tal maneira que hoje exibe um skyline impressionante, recortado pelos arranha-céus do centro financeiro, o famoso hotel Marina Bay Sands, as estufas e árvores gigantes do Gardens by the Bay e ele, o Merlion, símbolo da cidade, metade leão, metade peixe. Contrastando com o visual futurista, autênticas shophouses do século 19 abrigam os bares do Boat Quay e um dos happy hours mais animados de Cingapura.

Mas o melhor de tudo isso é que é uma área planejada para ser espaçosa, ampla e verde (por incrível que pareça) e que da passagem para uma brisa gostosa que eu aposto que só tem lá.

Então, vamos dar um rolé? É só dar play!

(Ah, e antes que vocês digam “ei, que barra lateral preta é essa aí no vídeo?”, eu já digo logo “barra lateral? Não tô vendo na-da. Estão todos loucos.”)

…e a serpentina virou serpente!

16 fev

Esse ano não teve carnaval. Nada de confete, serpentina, marchinha. A quarta-feira de cinzas chegou e no armário não havia fantasias, no chão do quarto nem sinal da purpurina e a ressaca então, não chegou nem perto. O sono estava em dia, o corpo não doía e as unhas do pé continuavam limpinhas. Pois é, esse ano não teve carnaval…

Foi difícil sentir a folia se aproximar à distância sem escutar o som do surdo, dos tamborins, dos trompetes. Não acordar com as galinhas pra subir as ladeiras de Santa Teresa. Não ter a companhia daqueles poucos amigos que, assim como eu, permanecem fiéis ao carnaval e muito menos reencontrar aqueles outros que só aparecem nessa época do ano, perdidos nos blocos. Nada de mamãe eu quero, alalaô e nem apito do índio. Esse ano o Carnaval não abriu alas pra gente passar.

E como um casal tão carnavalesco como o a gente faz para sobreviver a mais um ano sem botar o bloco na rua? Oras, o que mais a gente gosta de fazer tanto quanto pular carnaval? A opção número um foi censurada. Viajar, é claaaaro! Afinal, estamos no coração da Ásia e, para noooossa alegria, o feriado mais aguardado do ano coincidiu com o maior holiday de Cingapura: o Chinese New Year. E se aí no Brasil o ano só engrenar depois do carnaval já virou piada e cara-de-pau, por aqui segue a mais pura lógica que o ano só comece depois… do ano novo! E então, começa o ano lunar chinês, o ano da Serpente!

E foi assim que ganhamos também um feriadão pra chamar de nosso! Bastava escolher o destino, comprar as passagens e, pimba!, nos mandar pra bem longe do facebook, que àquela altura já estava irritando com tantas fotos e posts sobre como é divertido o pré-carnaval carioca. Blééééé! Não foi surpresa descobrir que as passagens estavam caríssimas e que teríamos que escolher rotas mais baratas alternativas. Resumindo dias e dias de pesquisas na internet, descolamos passagens baratééérrimas para a desconhecida Padang. Pela bagatela oferecida, já era de se imaginar que essa cidade a oeste de Sumatra, na Indonésia, não era o destino mais procurado por turistas. E essa era a grande graça da coisa.

Sexta-feira pré-carnaval, digo, pré ano novo chinês, já estávamos de folga curtindo o clima de festa em Cingapura. Antes de botar o pé na estrada, ainda deu tempo de tomar uma saideira numa Chinatown fervilhando de gente – chineses e turistas – às vésperas da grande noite. Sábado embarcamos pra Padang.

Andando pelas ruas da cidade, dava pra entender o motivo das passagens tão baratas.  O lugar já viu dias melhores, possuía um charmoso distrito colonial que eu só conheci através da internet. Em 2009, um terremoto devastou a cidade, que até hoje não se recuperou. De atração turística, acredito que só sobrou um museu, que nem chegamos a visitar. O plano era seguir caminho para as montanhas até a pitoresca Bukittinggi, a duas horas de van de Padang – distância que o trânsito louco e os motoristas mais loucos ainda faziam aumentar consideravelmente.

Bukittinggi é uma cidade muito turística: qualquer gringo que apareça por lá se torna imediatamente uma grande atração! Tudum-tum-tsss! (piadinha do André, viu?) Mas acreditem, amigos, se não bastassem todos os indivíduos na rua nos cumprimentando (eita povo simpático!), fomos abordados para tirar foto ao lado de uma menininha liiiinda dentro de um supermercado. Mas flashes e holofotes a parte a cidade é mesmo bonitinha com seu mercadão a céu aberto e feira na praça reunindo famílias, vendedores e barraquinhas para uma típica tarde de domingo. Isso tudo sem cruzar com um único grinnngou além de nós.  Ponto para Bukittinggi.

Descendo 44 curvas estrada abaixo (numeradas por placas pra não restarem dúvidas) chega-se no lago Maninjau formado a partir de uma cratera vulcânica e cercado de pequenos vilarejos dedicados à criação de peixes e à plantação de arroz. Para percorrer os 40km de extensão do lago por uma estradinha de mão dupla esburacada, recortada por pontes de troncos de madeira e cercada de casinhas e plantações, recorremos a uma scooter alugada do dono da pousada. Assim, expostos na garupa de uma moto, invadimos a vida calma das montanhas e fomos saudados pelos locais com acenos, sorrisos (uns tímidos, outros nem tanto) e até com alguns “hello how are you what’s your name?” (assim seguidinho como as crianças devem estar aprendendo nas lições da escola). E pra fechar o dia, um peixinho, uma cerveja gelada e um papo divertido com o dono do restaurante, logo ali na beira do lago e de frente para o por do sol.

Não, essa ano, definitivamente, não tivemos carnaval. Trocamos a serpentina pela serpente, quatro dias de festa por um ano chinês inteirinho pra fazer muitas folias como essa que fizemos na Indonésia. Quanto riso, quanta alegria!

Nossa motoca passa por escolinha às margens do lago Maninjau.

Nossa motoca passa por escolinha às margens do lago Maninjau.