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O preço da ostentação

23 ago

Não me venham falar em tradição.

Não me venham falar que a sopa da barbatana de tubarão é uma receita milenar que vovózinhas chinesas vêm passando através de gerações na tentativa de manter vivo antigos costumes do seu povo. A sopa da barbatana de tubarão nada mais é do que símbolo de status e riqueza, pura ostentação que se vê em grandes eventos como casamentos, festas e jantares de negócios. Herança da Dinastia Ming, que a elevou a condição de iguaria pela raridade de seu principal ingrediente, a sopa atualmente é consumida em escala muito maior do há alguns séculos.

Um amigo brasileiro que também vive aqui em Cingapura me relatou outro dia sobre um jantar de confraternização da empresa em que ele trabalha, onde foi servido o polêmico prato. Ele, que me conhece há anos e tá cansado de ouvir meus discursos sobre a sustentabilidade daquilo que levamos à mesa, recusou-se a experimentar. Seus companheiros cingapurianos, no entanto, se deliciaram com a iguaria sem culpa alguma. Não porque era gostoso. Não porque tinha propriedades medicinais. Mas porque era caro, chique e, para a sorte deles, de graça.

Segundo o site Stop Shark Finning, um prato da sopa pode custar até 100 dólares nos restaurantes, o que faz com que pescadores espalhados pelo mundo não poupem esforços para garantir as tais barbatanas que vão aumentar consideravelmente o lucro dos negócios. Não precisamos ir muito longe nessa história para concluir que, uma vez que apenas as barbatanas interessam, depois de cortadas e o lucro garantido, os animais são jogados de volta ao mar para morrer.

Isso, por si só, já é o suficiente para nenhum ser humano querer consumir esse tipo de alimento. Mas vamos seguir. Ao que parece, a barbatana em si não gosto de p* nenhuma, apenas serve para dar textura e consistência a um caldo de legumes ou frango. Quer mais? A medicina chinesa atribui à iguaria propriedades medicinais, entretanto a carne do tubarão possui altas doses de mercúrio se comparada à de outros peixes. Então? Ficou com água na boca?!

Em Cingapura, a Cold Storage, uma das maiores redes de supermercado, aboliu a venda da barbatana e da carne de tubarão. Logo o Carrefour e o Fair Price seguiram o exemplo e retiraram os produtos de suas prateleiras. Mas por aqui a sopa ainda é muito popular entre os chineses. Restaurantes de luxo a oferecem sem constrangimentos, casais continuam a esbanjando em suas bodas e ninguém esconde a vontade de experimentar o gostinho da riqueza!

Segundo a organização Sea Shepherd, mais de 100 milhões de tubarões são abatidos todos os anos. Oito mil toneladas de barbatana de tubarão são processadas anualmente, sendo que ela constitui apenas 4% do corpo do animal. Dezoito espécies de tubarão estão ameaçadas de extinção. Esse é o preço da ostentação.

Barbatanas de tubarão expostas nas vitrines de Macau.

Barbatanas de tubarão expostas nas vitrines de Macau.

 

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cissa.em.little india

2 jul

Apesar da eficiência e da ordem cairem muitíssimo bem na minha rotina por aqui (jamais vou reclamar disso…), é ótimo saber que a poucas estações de metrô – ou a uma bela caminhada para os dias de maior disposição – se encontram pequenos redutos de autenticidade e tradição capaz de quebrar qualquer possível monotonia das áreas, digamos, mais modernizadas.

O vídeo de hoje traz justamente um desses lugares: a Little India. Como o nome mesmo sugere esse é o bairro que reúne a comunidade tamil, terceiro maior grupo étnico de Cingapura. Apesar de hoje em dia eles viverem espalhados pela cidade, o comércio e os principais templos seguem concentrados nessa região que exala cheiros e exibe cores que são um convite a um longo dia de caminhada sem rumo. Ali as vitrines brilham com joias de ouro enquanto barracas na rua transbordam flores e frutas e camelôs anunciam piratão dos melhores filmes de Bollywood. As casas de massagem ayurvedica ou pintura de henna se intercalam com restaurantes, templos e mesquitas. No ar, o cheiro de curry, incenso e o som alto das buzinas.

As pequenas shophouses que afloram por toda a cidade, na Little India são mais exibidas e coloridas. No Tekka Centre a noção de tempo vai pro espaço, pois as pequenas tendas têm tudo para decorar a casa: almofadas e tecidos do Nepal, artesanato de madeira da India, óleos, velas e quando vê lá se foram 40 minutos! Outro ponto bom para bater perna é o Arcade, mercadão de frutas, legumes, peixes e carnes que também aloja um imenso refeitório de comidas típicas indianas. Nada melhor para fazer hora enquanto os templos não abrem suas portas para os devotos que chegam no fim do dia com suas oferendas e rezas.

Apesar de ser um pequeno reduto barulhento, colorido e desordenado, em um aspecto ele continua igual ao resto da cidade: o clima. Você pode dar o azar de pegar um sol de rachar ou dar o azar de enfrentar um pé d’água sem aviso prévio. Ou os dois quase ao mesmo tempo.

cissa.em.chinatown

7 jun

Não ligo pra cronologia. Muito pelo contrário. Adoro filmes que começam pelo fim, de preferência com a morte do mocinho. E antes de iniciar um novo um livro leio sempre último parágrafo. Então, não vai ser aqui no meu blog que vou me preocupar com a ordem dos acontecimentos, certo?

O vídeo de hoje retrata uma noite que aconteceu há muito tempo numa galáxia distante. Havíamos chegado há poucas semanas em Cingapura e bater perna pela Chinatown ainda era uma novidade. Mas de fato essa noite foi diferente e não vimos mais o lugar tão cheio e animado desde então, já que estávamos na véspera do Ano Novo Chinês. E, pra nossa sorte, o maior feriado daqui coincidiu justamente como o nosso primeiro carnaval longe do Rio, lembram? Contei tudo isso aqui.

Como promessa e dívida, finalmente arrumei um tempo para editar o material das gravações daquela noite. Reparem: verão bombando, todo mundo suado, aquela falta de glamour de sempre! E pra quem anda reclamando que os vídeos estão muito curtos (viu, Marcinha? viu, mãe?), adivinhem só?! Pois é, continuam curtinhos, curtinhos…

 

cissa.em.yangon

29 maio

Eu sei que eu ando em falta. Sei que o Chinese New Year, os highlights aqui de Cinga e outras viagens  ainda não ganharam um video para chamar de seu. Paciência. Mas, fazer o quê? Yangon mal chegou e conquistou a pole position. Não aguentei ficar com esse mateial aqui no meu HD sem fazer nada com ele. O resultado final não faz jus à viagem, mas é o máximo que eu pude fazer com a ansiedade de mostrar correndo minhas impressões da viagem, além do que já tinha escrito no post anterior.

Então, com vocês, mais um pouquinho de mim… do outro lado do mundo!

cissa.em.padang – parte II

9 abr

Aos céticos de plantão, aí vai o segundo vídeo em menos de 24h! Há!

Mas não se acostumem muito, não, pois os próximos ainda vão demorar um cadinho. Mas prometo que valerá a pena esperar: teremos os devotos flagelados da procissão hindú do Thaipusam e uma chinatown fervilhando às vésperas do Ano Novo Chinês. Mas não hoje. E nem amanhã. Com muita sorte semana que vem! Mas prometo novos textos enquanto os vídeos não ficam prontos…

Agora deixo vocês com mais um pouquinho de mim – do outro lado do mundo. Um videozinho da nossa estadia no lago Maninjau durante a viagem a Padang, na Indonesia. Se você leu e já esqueceu, aqui tá o post!

Ah, aquela coisa: fase de teste, bla bla bla…

cissa.em.padang

8 abr

Pronto!

Demorei, demorei e aí demorei mais um pouco. E então, finalmente, hoje posto o primeiro vídeo do blog. Vamos fingir que foi tudo planejado para esse post entrar especialmente hoje em homenagem ao nosso aniversário de quatro meses de Cingapura! Combinado?

Tenho muitas desculpas para dar pela demora, a começar pela Revolução das Máquinas que ocorreu aqui em casa. Câmeras, computador, celular e televisão, todos dando pau ao mesmo tempo. Experimente isso na sua casa e estará a um passo da loucura, meu amigo! Acredite! Eu estava lá e não foi bonito, não.

Superado o trauma, aí está o fruto das primeiras brincadeiras. Ainda é humilde, curtinho e em fase experimental. Força no “experimental”, viu?! E no “humilde”. E no “curtinho” também, afinal o vídeo tem só dois minutinhos! Mas foi feito de coração para resumir um pouquinho de mim – aqui do outro lado do mundo – quando estive em Padang em pleno carnaval. (Não lembra? Pode reler aqui!).

Já aviso logo que o vídeo tem continuação! E que, se as máquinas colaborarem, não vai demorar mais quatro meses pra aparecer…

(ps: como não amar o tiozinho que passa dançando pela feira?!)

…e a serpentina virou serpente!

16 fev

Esse ano não teve carnaval. Nada de confete, serpentina, marchinha. A quarta-feira de cinzas chegou e no armário não havia fantasias, no chão do quarto nem sinal da purpurina e a ressaca então, não chegou nem perto. O sono estava em dia, o corpo não doía e as unhas do pé continuavam limpinhas. Pois é, esse ano não teve carnaval…

Foi difícil sentir a folia se aproximar à distância sem escutar o som do surdo, dos tamborins, dos trompetes. Não acordar com as galinhas pra subir as ladeiras de Santa Teresa. Não ter a companhia daqueles poucos amigos que, assim como eu, permanecem fiéis ao carnaval e muito menos reencontrar aqueles outros que só aparecem nessa época do ano, perdidos nos blocos. Nada de mamãe eu quero, alalaô e nem apito do índio. Esse ano o Carnaval não abriu alas pra gente passar.

E como um casal tão carnavalesco como o a gente faz para sobreviver a mais um ano sem botar o bloco na rua? Oras, o que mais a gente gosta de fazer tanto quanto pular carnaval? A opção número um foi censurada. Viajar, é claaaaro! Afinal, estamos no coração da Ásia e, para noooossa alegria, o feriado mais aguardado do ano coincidiu com o maior holiday de Cingapura: o Chinese New Year. E se aí no Brasil o ano só engrenar depois do carnaval já virou piada e cara-de-pau, por aqui segue a mais pura lógica que o ano só comece depois… do ano novo! E então, começa o ano lunar chinês, o ano da Serpente!

E foi assim que ganhamos também um feriadão pra chamar de nosso! Bastava escolher o destino, comprar as passagens e, pimba!, nos mandar pra bem longe do facebook, que àquela altura já estava irritando com tantas fotos e posts sobre como é divertido o pré-carnaval carioca. Blééééé! Não foi surpresa descobrir que as passagens estavam caríssimas e que teríamos que escolher rotas mais baratas alternativas. Resumindo dias e dias de pesquisas na internet, descolamos passagens baratééérrimas para a desconhecida Padang. Pela bagatela oferecida, já era de se imaginar que essa cidade a oeste de Sumatra, na Indonésia, não era o destino mais procurado por turistas. E essa era a grande graça da coisa.

Sexta-feira pré-carnaval, digo, pré ano novo chinês, já estávamos de folga curtindo o clima de festa em Cingapura. Antes de botar o pé na estrada, ainda deu tempo de tomar uma saideira numa Chinatown fervilhando de gente – chineses e turistas – às vésperas da grande noite. Sábado embarcamos pra Padang.

Andando pelas ruas da cidade, dava pra entender o motivo das passagens tão baratas.  O lugar já viu dias melhores, possuía um charmoso distrito colonial que eu só conheci através da internet. Em 2009, um terremoto devastou a cidade, que até hoje não se recuperou. De atração turística, acredito que só sobrou um museu, que nem chegamos a visitar. O plano era seguir caminho para as montanhas até a pitoresca Bukittinggi, a duas horas de van de Padang – distância que o trânsito louco e os motoristas mais loucos ainda faziam aumentar consideravelmente.

Bukittinggi é uma cidade muito turística: qualquer gringo que apareça por lá se torna imediatamente uma grande atração! Tudum-tum-tsss! (piadinha do André, viu?) Mas acreditem, amigos, se não bastassem todos os indivíduos na rua nos cumprimentando (eita povo simpático!), fomos abordados para tirar foto ao lado de uma menininha liiiinda dentro de um supermercado. Mas flashes e holofotes a parte a cidade é mesmo bonitinha com seu mercadão a céu aberto e feira na praça reunindo famílias, vendedores e barraquinhas para uma típica tarde de domingo. Isso tudo sem cruzar com um único grinnngou além de nós.  Ponto para Bukittinggi.

Descendo 44 curvas estrada abaixo (numeradas por placas pra não restarem dúvidas) chega-se no lago Maninjau formado a partir de uma cratera vulcânica e cercado de pequenos vilarejos dedicados à criação de peixes e à plantação de arroz. Para percorrer os 40km de extensão do lago por uma estradinha de mão dupla esburacada, recortada por pontes de troncos de madeira e cercada de casinhas e plantações, recorremos a uma scooter alugada do dono da pousada. Assim, expostos na garupa de uma moto, invadimos a vida calma das montanhas e fomos saudados pelos locais com acenos, sorrisos (uns tímidos, outros nem tanto) e até com alguns “hello how are you what’s your name?” (assim seguidinho como as crianças devem estar aprendendo nas lições da escola). E pra fechar o dia, um peixinho, uma cerveja gelada e um papo divertido com o dono do restaurante, logo ali na beira do lago e de frente para o por do sol.

Não, essa ano, definitivamente, não tivemos carnaval. Trocamos a serpentina pela serpente, quatro dias de festa por um ano chinês inteirinho pra fazer muitas folias como essa que fizemos na Indonésia. Quanto riso, quanta alegria!

Nossa motoca passa por escolinha às margens do lago Maninjau.

Nossa motoca passa por escolinha às margens do lago Maninjau.